domingo, 6 de fevereiro de 2011

Dois em três não é ruim


Tem uma música famosa do cantor Meat Loaf (Bat Out Of Hell – 1977) entitulada “Two Out Of Three Ain’t Bad”, que traduzo livremente para “Dois Em Três Não É Ruim”, a qual sempre gostei e, até hoje, quando a escuto, fico pensativo. Para quem não a conhece, as três coisas que ele se refere são: querer, precisar e amar. O personagem da música brada que ele quer a mulher, que ele precisa dela, mas que chamais irá amá-la e que ela deve se contentar, pois dois em três não é ruim. Uau! O enredo da música tem mais detalhes, mas essa questão de dois em três não é ruim me deixa sempre muito intrigado. Seria perfeito se ele oferecesse três em três para ela ?

Vejamos. Ele diz que a quer. O que seria querer ? Um desejo ou uma vontade ? Tem diferença entre desejar e ter vontade de ? Tem sim. Todos nós temos desejos. Eu gostaria de ter um Porsche Carrera, de dar a volta ao mundo em 80 dias ou de só curtir a vida. São exemplos de desejos. São visões de coisas que almejamos, vindas do subconsciente, mas que não necessariamente se transformam em ação. Vontade, por sua vez, é uma força e carrega uma ação. Quando temos vontade de algo, sempre parte de um desejo, mas já processamos e passamos a colocar ações em cima, impulsionadas pelo nosso ego. Querer ser um executivo de uma companhia e por isso trabalhar bastante e fazer um MBA é um exemplo de uma vontade. Ela carrega ações.

Querer, para mim, está associado a uma vontade e não a um desejo. O personagem da música, ao dizer que quer aquela mulher, está dizendo que tem mais que só um desejo. Ele é levado por uma força que o impulsiona para estar com ela, pois a admira, acha-a bonita ou ela possui qualquer outro conjunto de qualidades que realmente o movem para estar perto dela. Ele acredita que vale a pena estar com ela. O querer carrega bastante um lado racional. Existe uma lógica por trás e não é só um desejo sem conseqüências. Quando queremos algo, partimos de um desejo e colocamos nossa racionalidade para determinar que devemos colocar ações em busca dele.

O segundo ponto levantado pelo personagem é o fato de ele dizer que precisa dela. Bem, se está falando de um momento da vida dele que ele está muito por baixo e precisa do apoio dela ou se ele está com dificuldades financeiras e, temporariamente, precisa do suporte dela para ir levando a vida, ou se ele precisa do apoio dela para criarem um filho que tenham em comum, são situações que o “eu preciso” faz sentido. Agora, se for uma situação duradoura ou eterna, devo discordar. Ninguém deve precisar de alguém para viver. Excetuando as crianças até se tornarem adultos ou os idosos com o avançar da vida, ninguém deve precisar de outrem, eternamente ou por um período longo de tempo, para viver. Somos seres autônomos e perdemos o cordão umbilical quando nascemos. Passado o período da infância, temos que ser capazes de viver sozinhos, com a ajuda de outros sim, mas não eternamente dependentes.

O terceiro ponto, e bem aquele que ele não consegue oferecer a mulher, é o amor. Este sentimento que ninguém controla, mas que é capaz de controlar nossas vidas. Quem nunca o sentiu de verdade, não sabe a força que ele tem para transformar nossos destinos. É um sentimento que poucos conseguem explicar de onde vem, quando termina ou se termina ou não. É este sentimento que o personagem não consegue oferecer a ela, pois este ele não controla. Não escolhemos quem vamos amar, quando e porquê. Terapeutas dizem que o amor são projeções. Poetas dizem que são dádivas. Independente da escolha em quem acreditar, sempre será algo que fascina e que move montanhas.

Dá para amar e não querer ou precisar ? Dá para querer e precisar sem amar ? Dá para precisar e não querer e nem amar ? Ou se ama tem que querer e precisar ? Como ficamos ? E se for um em três ? Quantas questões ! É assim que sempre fico, mas hoje tenho uma opinião clara sobre este dilema.

Ah, o amor ! Quanta força ele tem por si só. Para muitos, basta amar que o resto vem a reboque. Isto, porém, pode ser verdade quando temos 15, 20 ou 25 anos. Nossas bagagens estão quase vazias, tipo início de viagem. Por si só a força do amor nos leva a qualquer lugar. Acho que nessa altura da vida, se fosse este o Um, não precisaria  dos outros Dois e estaria tudo ótimo. Não é bem assim quando se está na segunda metade da vida.

Não basta amar. Tem que querer. Parece óbvio, mas quando já temos uma bagagem grande de vida e cada escolha leva a uma ou mais renúncias, o amor por si só pode não ser suficiente para mover uma pessoa. Se o seu lado racional, representado pelo querer, não ajudar, o amor pode não bastar. Querer alguém para que este possa nos ajudar a ser uma pessoa melhor, para crescer na vida ou para compartilhar experiências de maneira racional e consciente é algo que passa a ter importância na vida mais madura. E seu peso aumenta para a tomada de descisão a favor da pessoa que se quer. Só querer, porém, sem amar, também pode levar a uma vida sem emoções e com decisões muito racionais. A vida é muito curta para se deixar tudo para o seu final.

Quanto ao precisar, bem, acho que já deixei claro que acho que não deveríamos precisar de alguém para viver. Mas isto, com o avançar da vida, pode mudar. Sem dúvida, quando nos aproximamos da fase final das nossas vidas, vamos repetindo o início delas e podemos nos tornar novamente dependentes. Mas, no auge da fase adulta e bem antes da fase terminal, acredito que deveríamos lutar para conquistar a nossa independência. É missão de cada um atingir este estágio.

Concordo, portanto, que dois em três não é ruim. É, na verdade, o melhor deles. Se eu fosse reescrever a música hoje, acho que ela ficaria mais ou menos assim: “Te amo, te quero, mas não preciso de você”. Acho que deixaria a relação mais forte e não permitiria que ela caísse no conformismo. Fácil falar, difícil encontrar. Tudo isto deve ser visto e pensado, porém, com o tempo de cada um em perspectiva.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Facebook: encontre seus amigos

Entrei pela primeira vez no Facebook no ano passado. Se existisse uma carteirinha para os associados, na minha estaria assim gravado: membro desde junho de 2010. E desde que me tornei membro deste clube social, sou um usuário freqüente. A ideia de começar a usar esta comunidade de relacionamentos veio em um domingo quando estava em casa com meus filhos. O Gabriel estava usando o Orkut e o Pedro pediu que eu criasse um usuário no MSN para ele poder interagir com a família e amigos. Naquele momento, percebi que estava ficando por fora e que, se quisesse acompanhar a evolução deles, teria que me inserir mais neste mundo dos relacionamentos virtuais.

Na hora que o notebook vagou para mim, abri uma conta no Facebook. Escolhi esta rede social, pois já havia sido convidado por outros amigos com idades similares a minha e ouvira dizer que a idade média dos usuários do Orkut era de 16 anos e do Facebook, 35. Definitivamente, esta seria mais a minha praia. Logo no início, fui me familiarizando com a ferramenta e construindo minha rede de amigos. Hoje tenho mais de 400 e, provavelmente, muitos dos que estão lendo esta crônica/texto/artigo (sei lá como chamar) clicaram em um link no Facebook para chegar aqui. Agora já sei que não tem idade para usá-lo.

O que começou com uma forma de eu entender esse novo mundo para acompanhar o crescimento dos meus filhos, logo se tornou algo que passou a me fascinar. Não pela tecnologia em si ou mesmo por me abrir muitas novas oportunidades de relacionamento na vida. O fascínio vem do fato de como esta aplicação está reescrevendo a maneira como todos nós estamos nos relacionando ou mesmo nos expondo ou abrindo. Se por um lado tenho mais de 400 amigos, aumentando a cada dia, os quais podem compartilhar um pouco da minha vida, estou morando quase o mesmo tempo no meu novo apartamento e não tenho relação alguma com os meus 5 vizinhos de porta. Parece que, quanto mais nos conectamos globalmente, mais nos afastamos localmente.

Por meio do Facebook, consigo saber novidades dos meus amigos que moram em várias partes do Brasil e do mundo. Recebo informações instantâneas de qualquer lugar onde eles estejam, com dicas, fotos e tudo que possamos imaginar. Tudo isso sem sair da minha casa, sentado em uma mesa de bar ou viajando e usando o meu iPhone. Não importa onde estou. Basta ter uma conexão e passo a me relacionar com os meus amigos. Se eles estão online na mesma hora que eu, podemos conversar em um chat só nosso. Posso mandar mensagens para apenas um amigo ou escrever no meu mural e todos vão poder compartilhar a mesma informação. É, de fato, uma ferramenta muito poderosa.

A medida que fui fazendo crescer a minha rede de amigos, fui descobrindo mais e mais as maravilhas desta aplicação. Reencontrei amigos meus da minha infância. Agora sei um pouco de como eles vivem suas vidas, se estão casados, se tem filhos ou seja lá que novidade tenham. Até fotos antigas, que nunca tinha visto antes, encontrei no perfil de um amigo meu. Elas fizeram-me voltar no tempo e sentir saudades daquela fase das grandes aventuras que foi a adolescência.

Mas a rede não é só para compartilhar momentos do passado. O presente está ali todo dia. O que mais se vê são as pessoas compartilhando tudo que é tipo de coisa dos seus dias presentes. Por trás de toda a tecnologia, da distância, da globalização, etc, estão pessoas e seus comportamentos. No momento que você passa a ter uma grande rede de amigos, fica fácil perceber como as pessoas são diferentes e possuem comportamentos diferentes entre si. O Facebook não muda esta característica intrínseca de cada um. Claro que podemos usar uma máscara e interpretarmos um papel neste campo virtual ao nos relacionarmos, mas, com o tempo, todos acabam deixando a sua marca pessoal conhecida no mundo real. 

Tenho todo o tipo de amigos. Tem aqueles que adoram o Facebook tipo BBB: só para dar uma "expiadinha". Compartilham muito pouco, mas adoram seguir o que os outros amigos estão dizendo ou mostrando. Tem aqueles que querem que todos saibam onde eles estão. Em qualquer lugar que entrem, dão um jeito de publicar no seu mural a sua localização. Tem aqueles que adoram compartilhar momentos importantes nas suas vidas e publicam punhados de fotos. Tem aqueles que gostam de chamar atenção para fatos importantes do nosso país, para as nossas vidas ou para uma causa a ser seguida. Tem aqueles que usam o Facebook para fazer propaganda de alguma coisa. Tem outros que usam o potencial desta aplicação para dar uma importante notícia. Tem aqueles que deixam de olhar televisão para acompanhar as novidades “postadas” pelos amigos. Tem aqueles que querem compartilhar ideias. Ou seja, o que não faltam são motivos e formas de usá-lo.

Eu, na verdade, passei a usar o Facebook para tudo isso. Sinto-me mais próximo de todos meus amigos e conhecidos, mas, apesar do imenso potencial para relacionamentos desta ferramenta, ainda acho que não tem nada como sentar com um amigo ou familiar e bater um papo, olho no olho, para contar todas as novidades e conversar sobre qualquer assunto. Como tudo, porém, aproveito para usufruir do melhor dos dois mundos.  

domingo, 21 de novembro de 2010

Imprevistos: alertas da vida

Quando menos esperamos, os imprevistos ocorrem. São aqueles acontecimentos nas nossas vidas que mudam tudo. O rumo delas acaba não sendo o mesmo após estes fatos. E do que eu estou falando ? Que imprevistos são estes ? Podem ser acontecimentos negativos ou positivos, mas normalmente são fatos do mundo externo que nos cerca. Muito difícil eles virem do mundo interno, pois é mais raro acordamos e dizermos que aconteceu um grande fato durante uma noite de sono e,  a partir desse, nossas vidas seriam alteradas.

Estou me referindo àqueles gatilhos que nos acontecem na vida, tais como, uma proposta de um emprego ou de um cargo novo, uma demissão, uma doença grave conosco ou alguém próximo, uma separação conjugal, a descoberta de uma traição de um amigo, uma grande paixão ou mesmo a morte de um ente querido. Qualquer fato destes vai trazer, com certeza, uma mudança de curso nas nossas vidas. Impossível passarmos à margem deles.

Agora, será que todos eles são mesmo imprevistos ? Não quero dizer que eles já estivessem escritos e poderíamos senti-los se aproximarem. Acidentes ou premiações acontecem, mas, em quantas vezes, se fizermos uma reflexão profunda, já não tivemos alguma sensação de que algo assim estivesse por vir. Nem sempre uma doença, uma separação, uma demissão ou mesmo uma paixão vem sozinha, sem ser precedida de sinais. Simplesmente, às vezes, não queremos enxergá-los.

Infelizmente, a maioria de nós adora uma zona de conforto. Algumas, de fato, são boas, mas tendem a nos deixar lentos, não criativos e preguiçosos. E, nesta inércia, acabamos não querendo ver ou ouvir os sinais que a vida nos passa. Parece que eles vão ficando armazenados em algum compartimento que fica entre o inconsciente e o consciente. Se trouxermos eles para o consciente, pronto, teremos que sair da zona de conforto e tomar alguma atitude. É mais fácil fazer de conta que eles não existem, virar de lado e ir seguindo a vida. Até que um dia, a vida nos prega uma peça e o fato rompe no mundo externo e vem a nossa consciência.

E agora ? O que fazer ? Se for um acontecimento bacana, que tende a transformar nossas vidas para um patamar de maior felicidade,  dá para relaxar e só curtir ? Provavelmente, não. Mesmo sendo algo positivo, como um novo emprego ou uma grande paixão, temos que estar atentos para saber aproveitar a boa chance. Gosto de dizer que são dádivas que recebemos, mas cabe a nós saber como vamos lidar com elas. São diamantes, mas em sua forma crua. Se não colocarmos energia de nossas vidas para lapidá-los, eles nunca se transformarão em jóias. Transformar uma paixão em amor, exige esforço. Transformar um emprego novo em um sucesso profissional, exige esforço. Não dá para deixar na mão da vida e acreditar que estas coisas sozinhas vão acontecer.

E quando os acontecimentos são ruins, tristes ou que abalem profundamente nossas emoções ? Difícil convencer alguém que seriam dádivas. No entanto, também acho que devemos encarar como oportunidades que a vida está nos colocando para refletirmos sobre como a conduzimos até então e se é assim que queremos conduzi-la dali para frente. Por mais que tenha muita dor associada ao acontecimento, ainda assim acho que é um grande alerta que a vida está passando para mudarmos. Pode ser a conduta com a nossa saúde, a relação com a carreira profissional, como vínhamos lidando com a relação a dois ou a importância que dávamos para as pessoas que nos cercam. Um fato forte no mundo externo pode ser uma grande oportunidade para revermos nossa conduta de vida.

Podemos ficar sentados e esperar que as coisas aconteçam ou tornarmo-nos observadores da nossa própria vida e senhores dos nossos destinos. Que a vida vai nos tirar da zona de conforto a toda hora, disso eu não tenho dúvida. É nossa atitude antes ou mesmo depois que os fatos acontecem que nos torna diferentes e com mais ou menos chances de sermos felizes.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Em certas horas, só nos resta torcer.

A satisfação ao ouvir meu filho Gabriel, espreguiçado no banco de trás do carro, dizer “como é boa a sensação de ser campeão” foi enorme. Estávamos voltando do ginásio após a última partida do campeonato infanto-juvenil de basketball da Grande São Paulo, na qual o Clube Athlético Paulistano havia derrotado o Esporte Clube Pinheiros. Foi uma partida eletrizante e o sabor da vitória estava na boca de todos ali no carro que sobreviveram a ela. Esta mesma cena, nos últimos anos, tinha sido exatamente o oposto. Por três vezes tive que consolar meu filho dizendo que chegar em segundo também era importante. Não preciso dizer que a taxa de sucesso foi perto de zero nestas minhas tentativas.

Acompanho a carreira do meu filho no basketball há 6 anos. Os ensinamentos que a prática esportiva trouxeram a ele neste período, sem dúvida, são e serão de muita valia em sua vida. O esporte trouxe a responsabilidade e a disciplina para participar de treinos diários e também aos fins de semana. O espírito de equipe e a camaradagem são a base do sucesso do seu time. Teve momentos muito díficeis também, como perder o primeiro emprego com 12 anos. O Sírio, clube para o qual ele jogava, acabou com a modalidade logo ao final do primeiro ano do meu filho no basketball federado. Veio a transferência para o Paulistano e o aprendizado sofrido com os três anos consecutivos com derrota na última partida, após trabalho de todo um ano. O sabor de ser vice tantas vezes foi muito amargo.

Assim, o esporte vem ensinando ao meu filho os revezes que a vida nos prega todos os dias. Sem treinamento, disciplina, foco e determinação, nunca chegaremos lá e, muitas vezes, isso não é condição suficiente para tal. O adversário pode ter feito tudo isso e nos superar ou mesmo podemos perder pela autoconfiança exagerada. O esporte serve como uma escola única para colocar em prática as questões importantes da vida.

E o meu papel de pai ? Até onde ele foi nesta história ? Por vários momentos tive vontade de entrar na quadra e empurrar meu filho para a cesta. Em outros quis gritar com ele, passar garra. Em muitos, apenas vibrar. Mas, ao final, tive que me contentar em ser apenas um espectador. Gritei refrões de “Vamos, Biel”, “É isso aí, meu filho”, “Defesa”, e dei aquela força na hora de levá-lo aos treinos ou debater o jogo após uma vitória ou mesmo derrota.

Certa vez, tive o privilégio de conversar com o Bernardinho, treinador dourado da nossa seleção masculina de voleibol. Perguntei a ele qual deveria ser a conduta de um pai frente a um filho atleta. Não esqueço uma frase que ele disse: “Seja um porto seguro e deixe o treinador fazer o papel dele”. O Bernardinho emendou dizendo que isto não quer dizer que não deveria apontar alguns caminhos, mas que meu filho, para a missão do basketball, não poderia ter dois técnicos. Tem sido muito difícil me segurar na arquibancada e não querer estar no banco de reservas dando instruções.

Hoje, por meio desta jornada do Gabriel no esporte, tenho muito claro qual é o papel que acho que nós pais devemos ter em relação ao filhos. Devemos suportá-los, orientá-los, torcer por eles, estar presentes, mas, não dá para entrar na quadra por eles e querer jogar no lugar deles. Temos que nos contentar em ficar na arquibancada e torcer. Acreditar que tudo aquilo que ensinamos, junto com os ensinamentos dos treinadores e companheiros que passaram na vida deles, possam trazer o efeito positivo que queremos.

Nossos filhos, a cada nova situação, terão que pesquisar as suas bases de ensinamentos para tomar suas próprias decisões. A medida que chegam à fase adulta, passarão a jogar por suas próprias pernas e nós pais não poderemos e nem deveremos entrar na quadra para jogarmos no lugar deles. Gritaremos de fora, mas não poderemos viver a vida deles. Podemos ser treinadores ou torcedores, mas não somos jogadores substitutos. Temos que ser jogadores atuantes, mas das nossas próprias vidas. Não estamos aqui para viver a vida de ninguém, senão a nossa.

Na quadra de basketball, assim como na quadra da vida, nossos filhos caem, se machucam, vencem, choram, gritam. Devemos estar sempre lá para acompanhar as suas emoções, boas ou ruins. Segurarmo-nos para não entrar na quadra não é tarefa fácil e é na adolescência que começa esta transição. É uma fase importante para os filhos e também para nós. É a hora de irmos saindo da quadra e juntarmo-nos a torcida. É difícil, mas pode trazer muita satisfação. A base principal da teoria está dada. Só nos resta ver o que acontece quando o juiz apitar o início da partida.

Coração na mão, grito na boca e orgulho no peito. Nesta hora, só posso torcer. Vai lá, meu filho. Como é bom ser pai.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Mão dupla para a tecnologia nas nossas vidas

Sempre houve um intercâmbio de valores entre as pessoas físicas (nós, os humanos) e as pessoas jurídicas (as empresas). Uma não passa inerente à outra. As empresas são afetadas pelos valores pessoais que trazemos incutidos na nossa personalidade quando ingressamos no trabalho, assim como, somos afetados pelos credos e a maneira formal e processual como as coisas acontecem num ambiente corporativo. As duas pessoas são, concomitantemente, afetadas pelo o que a outra traz consigo e ambas acabam levando um pouco do que a outra tem. E este é um caminho de duas vias.

Tenho reparado, porém, que a tecnologia da informação também vem sofrendo este intercâmbio entre as pessoas e as empresas. Isto não era comum, pois o sentido sempre foi das empresas para as pessoas. O uso da tecnologia nas nossas vidas pessoais só acontecia depois de muito esta ter sido adotada pelas empresas. Após um tempo de uso dela para o trabalho é que conseguíamos usufruir dos mesmos benefícios na vida pessoal.

Quando surgiram os primeiros grandes computadores, estes eram para poucas e grandes empresas. Sua concepção e desenvolvimento visavam ajudar as corporações a solucionar os problemas que afetavam o seu dia a dia, como questões financeiras, de recursos humanos e de produção. Nós, os humanos, se tínhamos algum contato com esta tecnologia era pensando somente nas questões da empresa.

A tecnologia foi evoluindo e foi inventado o computador pessoal (PC). Este já podia ficar sobre uma mesa convencional de uma pessoa, mas ainda surgiu como um equipamento das empresas e usado internamente para o trabalho. Passado algum tempo, o preço caiu e o PC tornou-se popular também no mundo das pessoas físicas. Aqueles que primeiro o adotaram para uso pessoal, viveram as primeiras experiências da transferência da tecnologia da informação do meio corporativo para o interior de suas próprias casas.

Esta mesma transferência ocorreu com os hoje tão “batidos” e-mail e planilha de cálculos. Estas tecnologias foram difundidas largamente no ambiente corporativo e, posteriormente, invadiram cada um que possuía um PC. Acessei o meu primeiro “inbox” em um terminal de um mainframe,  longe de ser algo para uso pessoal. Hoje, contudo, acesso meus e-mails (tenho mais de um sim) pelo meu PC, pelos meus smartphones e de qualquer equipamento que tenha algum acesso a internet. Aquilo que começou com uso restrito nas empresas invadiu a nossa vida pessoal.

De uns anos para cá, porém, o fluxo de adoção de tecnologia parece ter ganho uma nova direção, passando das pessoas para as empresas. Não que elas não continuem influenciando o uso de tecnologia nas nossas vidas pessoais, mas percebe-se agora uma mudança. As empresas também estão adotando tecnologias que foram primeiro adotadas por nós, as pessoas.

Há alguns anos atrás, planejei uma viagem aos EUA e defini a localização de hotel, roteiro, locais de visita, etc, usando um aplicativo baixado da internet que mostrava fotos de satélite de todos os lugares que eu iria passar. O uso era totalmente pessoal. Hoje, vejo emissoras de televisão, empresas globais, etc,  usando o mesmo aplicativo, quase que diariamente, para mostrar endereços em qualquer lugar do mundo. Senti-me um precursor, mas, na verdade, esta aplicação estava disponível para qualquer um que tivesse acesso a internet. Foi o simples fato de que as pessoas a adotaram antes das empresas.

Outro exemplo são as redes sociais. Seu uso é largamente difundido entre nós, pessoas físicas. As empresas, entretanto, estão se debatendo para entender como acompanhar o passo imposto pela adoção desta tecnologia. As redes sociais abriram novas formas de relacionamento entre as pessoas e as empresas se perguntam: “Devemos adotá-las ?”, “De que maneira ?”, “Com qual objetivo ?”. É mais uma tecnologia que ganhou forte adesão no mundo das pessoas e está migrando para o mundo das empresas.

Está claro que não há mais sentido único ou obrigatório na adoção da tecnologia. O caminho está aberto e tem duas mãos. Empresas e pessoas compartilham agora valores, credos e preferências tecnológicas. Nenhuma das duas partes consegue viver mais sem ser afetada pela outra, como deve ser em todo bom relacionamento. Fica a pergunta: Qual será a próxima tecnologia que vai mexer com as nossas vidas, seja como pessoa física ou jurídica, e de qual direção ela virá ?

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Trabalho: onde está o limite ?

Cresci ouvindo que “o trabalho enobrece o homem”. Meu pai, a quem devo muito dos meus valores, repetia insistentemente esta frase, mesmo que eu tivesse apenas 14 anos e estivesse longe de ser um adulto que dependesse do trabalho. Este valor, porém, ficou fortemente gravado na prática. Nesta idade, já trabalhava com ele durante o verão para ganhar um “troquinho”. Ele foi justo e remunerou-me adequadamente. Enquanto meus amigos iam para a piscina do clube curtir o verão, eu e meu irmão ralávamos carregando caixas de bebida. Ao final do mês, porém, tínhamos um bom dinheiro para fazermos o que quiséssemos com ele. Isso se repetiu por, no mínimo, três anos seguidos.

Aprendi, assim, na minha adolescência, e comprovei logo no início da minha vida adulta, que trabalho não traz apenas dinheiro, mas uma satisfação muito forte. Um senso de realização magnífico. Sigmund Freud escreveu: “Para um homem ser feliz, basta trabalho e amor”.  Claro que estamos falando de um trabalho que nos estimula, que nos dá prazer. Quando assim o for, é fonte de felicidade. Mais que importante e necessário, ele é um pilar das nossas vidas. E me refiro a qualquer tipo de trabalho, desde aquele realizado por uma dona de casa, de um funcionário de uma empresa, de um profissional autônomo, de alguém que presta serviços comunitários, etc. Trabalho que, de alguma forma, traz uma satisfação para quem o realiza.

Preocupa-me, porém, quando vejo pessoas que levam a questão do trabalho tão a fundo que esquecem o outro lado da frase de Freud. Segundo ele, e conforme vejo e já experimentei, é preciso também amor. Aqui me atrevo a qualificar amor como amor por uma companheira, aos filhos, a si próprio, a saúde, ao próximo, a vida. Qualquer forma de amor que possa contrabalançar a dedicação e a energia que o trabalho nos exige.

Ninguém questiona a importância de atividades físicas nas nossas vidas. Correr, caminhar, pedalar, malhar ou jogar qualquer partida, comprovadamente, trazem benefícios para a nossa saúde e o corpo agradece. Passar dos limites nestas atividades, porém, treinando exaustivamente todos os dias, nos leva a entrar num processo de “overtraining”. Neste estágio, aquilo que deveria ser benéfico passa a ser um malefício. O saldo de energia tende ao negativo e o esporte deixa de ser algo saudável, mesmo parecendo que ainda nos mantêm felizes.

O álcool, se apreciado com moderação, pode ser elemento de descontração e aumento de sensação de prazer. Pode, contudo, se ingerido em quantidade e frequência alta, nos levar ao vício. O limite muitas vezes é tênue, mas, ao ser ultrapassado, inverte o sentido da coisa. Estamos sujeitos a ficar a alguns passos do alcoolismo, que é visto e tratado como uma doença.

Uso estes dois exemplos para chamar atenção ao fato de que o trabalho também possui uma linha tênue entre algo prazeroso, necessário, fundamental, e algo viciante, que deturpa, que pode trazer sofrimento a quem nos cerca. Trabalhar compulsivamente também pode ser visto como algo não saudável.

Não digo que não devemos focar no trabalho em muitos momentos importantes da nossa vida, da nossa carreira. Quem não ralou muito no primeiro emprego ? Quem não virou noites para fechar aquele negócio ou projeto ? Quem não dedicou finais de semana para mostrar que foi a escolha certa para aquele cargo ? Quem não trabalhou muito só para conseguir mais dinheiro ? Quem não fez tudo só para ver os filhos, os necessitados, os amigos... felizes ? Estas são situações normais da vida e vão ocorrer enquanto trabalharmos.

Estou falando daqueles que já se tornaram compulsivos em relação ao trabalho. Daqueles que esqueceram o amor de Freud, ou acham que o amor também vem do trabalho. Daqueles que, por anos, acham que podem abrir mão das relações, do cuidado da saúde, da família, do conhecimento, etc, em nome de “Não posso agora, tenho que trabalhar”. Sempre estão em estado de emergência e nunca saem. Assim como no esporte, o overtraining diminui o rendimento.  Ser um “workacholic” também não significa ter a melhor produtividade e nem ser o mais eficiente.

O corpo tem limites e estes limites vão encurtando com os anos. As relações humanas tem limites e, para não diminuirem, precisam ser cultivadas. Saber equilibrar trabalho com os demais aspectos da vida é uma virtude e deve ser festejada. As empresas também se beneficiam deste equilíbrio e, aquelas que estão a frente no seu tempo, incentivam esta atitude em seus colaboradores. A Betania Tanure, em seu livro “Executivos: Sucesso e (In)felicidade”, aborda com maestria os desafios na busca do sucesso pelo trabalho e o equilíbrio com a vida pessoal. Da resolução desta equação resulta a felicidade ou a infelicidade.

Antes de cruzar os limites, vale a pena buscar o equilíbrio.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Solidão e relacionamentos: tire proveito dos dois

Apesar da nossa condição fundamental de solidão (Irvin D. Yalom), a maioria de nós não gosta e foge dela. Precisamos de pessoas a todo momento a nossa volta para não nos deixar sós com nós mesmos (o nosso eu interior). Isto é o que eu tenho visto e sentido em muitas das minhas relações. Somos seres sociais e precisamos nos relacionar.

 

Já escrevi, porém, que acho que tanto a solidão quanto a sociabilização são importantes para nós. Cultivar relacionamentos íntimos ou mesmo superficiais são importantes para que possamos nos ver. As relações íntimas (parceiros, filhos, pais, irmãos, amigos, etc), principalmente, funcionam como um espelho nas nossas vidas e refletem muito nossas ações. Se somos alegres e felizes, normalmente esta é a energia que volta destes nossos entes queridos. Se estamos tristes e deprimidos, também podemos perceber na cara destas pessoas esta nossa condição.

 

Estar próximo de pessoas com alto astral é muito bom quando precisamos de uma mão para nos reerguermos de momentos difíceis ou simplesmente para manter nosso astral elevado. Buscar o carinho da família, o conselho de um colega que nos conhece há muito tempo  ou conversar com um amigo do peito, são todos momentos fundamentais para a preservação ou reconstrução da autoestima. Não adianta achar que acordar de manhã, se olhar no espelho e dizer "Eu sou o cara" é condição suficiente para uma autoestima forte e sustentável.

 

Precisamos, portanto, nos relacionar. Da nossa ação frente aos outros, vão surgir os feedbacks sinceros de quem de fato nós somos. E nada melhor que uma criança para o reflexo mais verdadeiro. Se nos munimos, porém, de uma persona que nada tem a ver com quem somos, a leitura nos conduzirá para um caminho errado, não sincero. 

 

Relacionar-se, assim, é muito bom e necessário. Mas relacionar-se só para fugir da solidão, pode ser um erro. Na ânsia de não ficar só, muitos se mantêm em relações ruins só para cumprir a agenda social, familiar, etc, ou mesmo por que não suportam ficar sozinhos. Isto quer dizer que não se bastam, não se aguentam a si mesmos. Antes mal acompanhado do que só. Criou-se uma inversão do famoso ditado. 

 

Fugir da solidão pode nos levar a um caminho não em sintonia com nosso verdadeiro Eu. Nossos reais desejos vem de dentro, do fundo do nosso coração, da alma ou do inconsciente, seja lá como queremos chamar. Eles brotam dentro de nós por uma voz difusa, difícil, muitas vezes, de interpretar.

 

Só a solidão nos permite de fato sentir. Mas sentir o quê ? Sentir o que está doendo ou incomodando. Sentir o que nos dá prazer, o que nos faz feliz, sem máscaras, sem personas. Esta condição, porém, de autoconhecimento, leva a um forte dilema que é a escolha. Muitos não querem ter que escolher e fogem da liberdade de viver como desejam. Toda escolha requer uma renúncia (jargão popular) e por isto é tão difícil. Momentos de solidão nos conduzem às dores, encarando de frente o que somos e sentimos, mas são fundamentais para a nossa evolução.

 

Por isso considero que as duas situações são importantes no nosso desenvolvimento como seres humanos. Só, para nos sentirmos. Relacionando-nos, para nos vermos.